Para não esquecer Olívio
Lamas
Passou quase despercebida
pela imprensa em 2007 a
morte do jornalista gaúcho Olívio Lamas, que morreu de câncer aos 58 anos, em
sua casa, em Garopaba.
Para quem não lembra, Lamas fez a primeira foto de um
paciente de aids em estado terminal, ainda nos anos 80, quando os
desdobramentos da doença ainda eram desconhecidos. Lamas também fez a histórica
foto do atacante do Grêmio André Catimba, após o gol do título do Gauchão de
77. André tentava dar um salto mortal no ar, mas errou e caiu de peito,
machucando-se.
O Prêmio Esso já era a
principal distinção dada a um jornalista no Brasil, o mesmo vencido pelo nosso
Herculano em Gravataí, quando Lamas foi contemplado com o primeiro lugar na
categoria foto urbana, em 88. A
partir daí, Lamas decidiu se tornar um exilado urbano. Construiu uma moradia
rústica na beira da lagoa de Ibiraquera, em Garopaba, onde viveu com mulher e
os filhos nos últimos 20 anos. Em 94, conversei com Lamas, publicando duas
páginas inteiras com suas histórias no Jornal diário A Notícia, de Joinville.
A foto “o retrato da Aids” causou
polêmica na redação e entre leitores nos anos 80 por revelar a face de um homem
em estado terminal em decorrência da Aids. A foto valeu o prêmio Esso, entre
outros, e foi publicada na revista Imprensa, no dia 11 de março de 88. Mas o
próprio jornal em que o fotógrafo trabalhava reusou-se a publicá-la, por considerar
muito chocante. À Revista Imprensa, Lamas perguntou: “mas o que é mais
chocante, a foto ou a Aids?”.
Lamas era um dos últimos remanescentes
do jornalismo romântico, repórter fotográfico de olhar sensível e atento às
oportunidades para registrar os dramas humanos, as injustiças, os ângulos
inusitados dos fatos relevantes e cotidianos. Não por acaso juntou um monte de
prêmios na trajetória profissional. Gaúcho de Rio Grande, Lamas começou como
boy na redação de Zero Hora, no final da década de 1960. Depois trabalhou na
Folha da Manhã, Coojornal e Placar. Foi editor de fotografia na sucursal
carioca de O Globo por 14 anos. Também realizou diversas exposições
fotográficas, inclusive na Assembléia Legislativa de Santa Catarina.
Em
94, me contou: “sempre vivi nos bares. Conheço os principais bares das maiores
cidades do Brasil. Foi nesses ambientes que cavei a maior parte das pautas que
levava para as redações em que trabalhei".
Em Garopaba, montou seu próprio bar, que também sediava exposições de arte
e de fotografias, suas e dos colegas.
Em
88, a
Aids era um mito desconhecido. O primeiro paciente terminal brasileiro vinha
sendo vigiado a sete chaves, num andar inteiro interditado no hospital Emílio
Ribas, em São Paulo. O
acesso à imprensa era proibido. Acompanhado de um repórter que faria o texto, Lamas
passou uma semana visitando a unidade para uma reportagem sobre o setor hospitalar.
Enquanto percorria as áreas liberadas, observava a movimentação durante as
trocas de turnos do pessoal médico. Assim, localizou no horário do almoço o
momento propício para dar o bote. Ou seja, passar furtivamente pelos
corredores, "na ponta dos pés", iludindo a vigilância preocupada,
para ganhar o piso proibido. Lamas abriu a porta e entrou. Estava feita a foto
que lhe daria os prêmios Esso, Fenaj, Kodak e Herzog de Direitos Humanos. No
quinto ou sexto disparo, surgiu uma enfermeira apavorada, se descabelando e
gritando que ele não podia fazer aquilo.
De
tão chocante a foto, ninguém queria publicar. Até que a revista Imprensa, então
do jornalista Paulo Markum, publicou a foto em página inteira, abrindo o
caminho para a conquista dos quatro prêmios e a consagração de uma carreira
profissional.
Lamas
deixou um acervo com registros de seus 37 anos de profissão, alguns dos
principais momentos da História recente do Brasil, imagens que vão do chocante
ao bucólico, passando por momentos como o da primeira campanha vitoriosa do
presidente Luis Inácio Lula da Silva, em 2002, em que Lamas foi o
fotógrafo oficial. Entre as chocantes, e que pavimentaram sua transferência da
capital gaúcha para São Paulo, estão as fotos da Égua 33 que saiu de um rodeio
em Vacaria-RS com fratura exposta numa das patas, e a de um cão bebendo o
sangue de seu dono que acabara de ser apunhalado. As fotos mostrando a matança
de animais silvestres na região do Taim, no Leste do Rio Grande do Sul, levaram
à criação de uma importante unidade de conservação federal na região. Em
Garopaba, dedicou-se ainda mais às causas ambientais, fotografando o litoral e
suas águas, florestas e edificações.
Lamas
foi um predestinado na profissão, já que contou com a sorte logo no início da
carreira, na Folha da Manhã, em Porto Alegre. Numa madrugada em que saía do
Palácio da Polícia, onde foi averiguar as ocorrências, Lamas já estava na
calçada de volta à redação quando sentiu uma bolinha de papel lhe tocar os
ombros. Havia sido jogada de uma janelinha das celas do antigo Dops, que
funcionava naquele prédio. Desamassou a bolinha e leu o recado desesperado: "Sou
frei Beto e estou no DOPS". A reportagem acabou salvando a vida do
escritor e religioso.
Por
mais meticuloso que fosse tecnicamente na busca da melhor imagem, Lamas foi sobretudo
um repórter, e a informação seu verdadeiro foto. Crítico, bem-humorado e
mordaz. Lamas morreu de câncer no intestino. Estava debilitado havia muitos
meses. O corpo foi velado em sua casa, na lagoa de Ibiraquera, e sepultado em Imbituba.
Sua última
grande matéria, em parceria com um repórter do Diário Catarinense, nunca foi
publicada. Recusada pela IstoÉ, Veja e jornais do Centro do País e de Santa
Catarina, o texto e as imagens mostravam um jovem lavador de carros de um
tribunal que buscava o reconhecimento de paternidade. O suposto pai é um juiz
da alta corte. Mas a iniciativa rendeu um acordo entre as partes.
Lamas, antes
de enfurecer-se com o desfecho, revelou o que é sentimento de uma categoria:
pelo menos a história fez alcançar o reconhecimento de que a verdade, mesmo não
sendo amplificada pelos meios de comunicação, foi aplicada.
Lamas não era
de se submeter aos ditames das convenções, avesso ao expediente de um jornal e
também às regras limitadoras da criatividade, das edições e chefias
subservientes. Possuía o seu próprio código, era muito bom no que fazia, tinha
consciência disso; caráter, determinação e um “faro” para o “furo”, intuía o
que podia ser notícia. Deixou um rastro das idéias pelas quais lutou, e que
comprovam a necessidade sempre urgente de os jornalistas observarem o mundo
antes de revelá-lo, de lutar por causas justas, de não temer os desafios, mesmo
quando a pauta vai além das coisas ordinárias.