quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Uma gota de justiça naquele canto esquecido do Brasil


Eu estava chegando em Porto Velho, Rondônia, em abril de 2011, quando um casal de extrativistas e defensores dos pequenos produtores foram assassinados no Pará, bem perto dali. Eu acompanhei a repercussão pela imprensa e entre as pessoas sob um ponto de vista privilegiado, convivendo num ambiente muito conhecedor daquela realidade, conversando com pessoas que sempre tinham alguma história pra contar sobre os assassinatos de agricultores.

Pois nessa semana, o homem apontado como responsável por aquele duplo homicídio foi enfim condenado a 60 anos de prisão. José Rodrigues Moreira enfrentou seu primeiro julgamento em Marabá, em 2013, e acabou sendo absolvido pelo júri popular. Mas o Ministério Público cancelou a decisão do júri levando o caso até a capital, Belém.

As vítimas foram José Cláudio Ribeiro da Silva (o Zé Cláudio) e Maria do Espírito Santo, mortos depois de sofrerem perseguições e ameaças. O casal insistia na preservação do Assentamento Agroextrativista Praia Alta Piranheira, que ainda é mantido por extrativistas que trabalham de forma sustentável, em Nova Ipixuna, no Pará.

Nesse mesmo julgamento, Lindonjohnson Silva Rocha, irmão de José, e Alberto Nascimento também foram condenados como co-autores do crime. Lindonjohnson foi condenado a 42 anos e está foragido desde novembro de 2015, assim como José. Já Alberto, condenado a 43 anos de prisão, cumpre pena no hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, em Santa Izabel, nordeste do estado.


Lembro que naqueles primeiros 11 anos do novo século, 72 pessoas haviam sido mortas somente em Rondônia por conta do interesse sobre a terra e a madeira. As vítimas eram geralmente agricultores que denunciavam o roubo de madeira da Amazônia, comércio financiado pelos poderosos coronéis daquele Brasil que parecia saído dos livros do período colonial.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Senador catarinense eleito por Rondônia tem bens bloqueados pela Lava Jato

 

Valdir Raupp nasceu em São João do Sul, em 1955

Pouca gente sabe, mas o senador eleito por Rondônia Valdir Raupp, é catarinense. Ele nasceu em São João do Sul, na divisa entre Santa Catarina com o Rio Grande do Sul.  Migrou para Rondônia em 1977, época em que aquele estado praticamente virgem atraiu multidões para o garimpo. O Governo Federal doava terras para quem quisesse, e Raupp se instalou na cidade do interior Cacoal, onde se elegeu vereador. Dois anos depois tornou-se o primeiro prefeito de Rolim de Moura em 1988, reeleito em 1992.

Pois Valdir Raupp teve nesta semana seus bens confiscados e bloqueados pela Justiça, onde ele é réu na Operação Lava Jato desde que seu nome foi citado por um doleiro como membro do esquema da Petrobrás.

Raupp fez carreira política nos confins brasileiros, onde os costumes e a cultura ainda com heranças do Brasil-Colônia facilitou o cabresto de votos e o coronelismo encabeçado por Raupp e outros sulistas que se deram bem em terra de ninguém, como Ivo Cassol, Acir Gurgacz, Jorge Teixeira e outros tantos.

Em 2011, eu estava em Porto Velho quando soube que Raupp iria oferecer mais uma vez seu evento anual, um jantar especial para jornalistas, onde foram distribuídos brindes como TVs, bicicletas, geladeiras. Além do jantar na faixa, é claro. Raupp manteve esse hábito por muito tempo, tornando os jornalistas da capital seus compadres.

Em 1990, Raupp candidatou-se a governador de Rondônia pelo PRN. Obteve a 2ª colocação e iria disputar o segundo turno contra o candidato Olavo Pires, eu acabou sendo assassinado dias antes do pleito. Para o lugar de Olavo foi alçado Osvaldo Piana, que acabou eleito, vencendo Valdir Raupp.

Em 94, Raupp tentou o Governo novamente e desta vez foi eleito, no segundo turno. Tentou reeleger-se em 1998, mas perdeu para José Bianco no 2º turno. Em 2002, elegeu-se senador por Rondônia.

Raupp surgiu entre os investigados da Operação Lava Jato, quando em de março de 2015 o ministro Teori Zavascki autorizou a abertura de investigação e mais tarde a quebra do sigilo telefônico contra o senador. Raupp havia sido citado pelo doleiro Alberto Youssef no esquema de corrupção da Petrobrás.

Em 5 de setembro de 2016, a Polícia Federal finalmente apontou indícios de que Valdir Raupp recebeu propina das empresas que construíram a usina de Belo Monte, no Pará, por meio de doações legais, segundo relatório que integra inquérito que corre no Supremo Tribunal Federal. Um dos indícios é o volume de contribuições que o partido recebeu das empresas que integram o consórcio que construiu a hidrelétrica: foram R$ 159,2 milhões nas eleições de 2010, 2012 e 2014. A denúncia foi apresentada em seguida.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Antiga Colônia Santana, hoje Instituto de Psiquiatria de São José, esconde segredos por trás dos seus muros brancos



Neste fim de semana, estive no atual IPQ – Instituto de Psiquiatria de São José, a 25 quilômetros de Florianópolis. Fiquei surpreso ao descobrir que o local, uma ampla estrutura, um complexo de prédios em meio a uma região de mata, foi construído no auge da Segunda Guerra, ainda em 1941, pelo então governador Nereu Ramos, quando ganhou o nome de Colônia Santana. Um investimento daquele tamanho, em meio a uma época de recessão que as guerras sempre deixam à sua volta.

Desde sua inauguração até 1996, o IPQ seguiu um modelo instituído pelo psiquiatra Philippe Pinel, na França, de onde surgiu a expressão “pinel”, tão comum nos anos 70 e 80, e que virou um jargão ou gíria para distinguir os loucos.

Em 1996, a Colônia Santana chegou ao fim, surgindo em seu lugar o Instituto de Psiquiatria do Estado de Santa Catarina (IPQ). Ao longo destas sete décadas, o hospital construiu uma historia que acompanhou o desenvolvimento político assistencial em saúde mental, passando de uma trajetória de segregação e superlotação. Hoje, os releases garantem que se trata de uma instituição moderna.


Na internet, como em todos os releases que os governos adoram enviar para a imprensa, o IPQ aparece sendo chamado de “referência em assistência psiquiátrica”, expressão que remete à imaginação de que em diversos estados do Brasil, e por que não em vários países do mundo, a instituição erguida por Nereu Ramos faz escola no planeta, e serve de modelo para todos!.

Mas não foi exatamente essa a impressão que tive do local.

Os pacientes são separados por sexo, e também por gravidade do quadro diagnosticado. Mulheres e homens não convivem no mesmo ambiente, e são sempre atendidos por enfermeiros ou enfermeiras do seu mesmo sexo. Isso já evitaria uma calamidade que seria meio óbvia, se não fosse trágica, a de que os funcionários abusassem das pacientes, como no filme Kill Bill, onde a personagem de Uma Thurman sofre abusos durante os anos em que ficou em coma.

A vida imita a arte, ou a arte imita a vida. Em Porto Velho, Rondônia, uma mulher chamada Elaine Cristina Libório, contou que foi estuprada diversas vezes por enfermeiros, enquanto estava grogue dos medicamentos.

Mas no Instituto de Psiquiatria de São José os abusos são evitados com essa providência de separação por sexo. Os relatos da precariedade e tratamento dizem respeito a outras atrocidades. Uma delas, por exemplo, é a proibição de que pacientes namorem, ou se apaixonem, ou tenham relações. Na ala feminina, pelo que apurei, existem os romances escondidos e proibidos entre as pacientes.

Todos os pecientes são proibidos de usarem suas próprias roupas. Eles recebem roupas que vieram de doações, ou procedência desconhecida, como sempre ocorre com roupas doadas. Quando as roupas seguem para a lavanderia, todas juntas e sem separação, são devolvidas aleatoriamente.

- Hoje eu estou com esse casaco, essa calça. Amanhã vejo a mesma roupa noutra paciente, depois de amanhã em outra. Um dia ela volta para que eu tenha que vestir -, explicou uma paciente.

Não há preocupação se as pessoas têm doenças de pele, alergias, ou mesmo aquele senso de higiene que aprendemos com os avós. Se você for louco, e for usar o SUS, precisa abandonar seus conceitos sobre higiene e esquecer o asco.

Os cigarros também são compartilhados, e da forma mais aleatória e despreocupada possível. Os familiares trazem cigarros para os pacientes, mas estes são distribuídos pelos enfermeiros com controle simétrico. E mesmo os pacientes que não receberam cigarros, são contemplados com seus exemplares, chamados de “doações” pelos pacientes.

O nível de conhecimento e preparação das enfermeiras pode ser medido por um caso ocorrido há poucos dias. Uma das pacientes conseguiu entrar escondido após uma visita com um cigarro Gudang. A enfermeira que percebeu e confiscou o material, ainda relatou na ata do dia, oficializando o motivo da apreensão: DROGA. Paciente foi flagrada com droga dentro da instituição.

A Gudang é a maior fabricante de cigarros da Indonésia. No começo do século XIX, um antigo cigarro chamado Kretek deu origem ao Gudang Garam, composto de Tabaco e Cravo, o que antigamente foi considerado medicinal. Estudos comprovaram que o Gudang não possui nenhuma porcentagem de maconha, como se chegou a cogitar. O que causa a "tontura" é o nível de nicotina, alcatrão e monóxido de carbono que é três vezes maior que um cigarro normal além da existência do Eugenol, um anestésico que produz as tonturas e em casos pode dar paralisia respiratória.

Há também o caso de uma paciente chamada Natália. Gaúcha de Gravataí, ela teve um filho com um rapaz catarinense de Braço do Norte, para onde foi morar com o marido e a sogra. No entanto,  Natália acabou sendo internada no IPQ pela sogra, que assim conseguiu ficar com o neto longe da nora.

Natália garante que não tem nenhum problema psiquiátrico, mas vive sob efeitos de medicamentos fortes e não consegue reagir. Entre os pacientes, também não é permitido uso de caneta. Mesmo assim, num ato de coragem, Natália conseguiu anotar um telefone num pedaço de papel e pedir socorro ao repórter.

- Liguem para minha mãe no Rio Grande do Sul e peça para ela vir me socorrer -, contou, desesperada.

O IPQ de São José funciona sob administração da Secretaria de Estado da Saúde (SES). Possui 160 leitos para internação de pacientes em emergência psiquiátrica, além do Centro de Convivência Santana (CCS) que abriga pacientes remanescentes do antigo Hospital Colônia Sant’Ana. Atualmente são atendidos 463 pacientes, entre crônicos e agudos, dos quais cerca de 40% moram na local.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Os toquinhos do Planela

 Falei aqui outro dia dos “toquinhos”, essa gíria estranha que o Planela jurava que já existia, lá nos anos 90. Significa os pequenos mimos que os jornalistas recebem de suas fontes, entrevistados, relações interpessoais.

Certa vez fiz uma reportagem que deu capa, com o goleiro de Futsal Fabiano Ventura. De baixa estatura, surgiu jogando na várzea, campeonato amador, tanto no campo, como no futsal. Acabou indo pra Itália, onde se naturalizou e chegou à seleção. No dia em que o jornal circulou, Fabiano foi até a redação me levar uma garrafa de vinho. 
Eu saboreei aquele vinho filosofando sobre os limites éticos entre a gentileza e a corrupção. 
Hoje recebi em casa mais um desses toquinhos, que me inspirou esse pequeno questionamento. Foi do pessoal do Novotel, estabelecimento que está sendo inaugurado em Florianópolis. São duas pequenas lentes acopláveis ao celular e tablet, que dão efeitos olho de peixe às fotos.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Tira-teima: Pequeno Segredo é mesmo melhor que Aquarius

 Os petralhas que me desculpem, mas Pequeno Segredo é muito melhor do que Aquarius. Hoje pela manhã (sim, de manhã!) pude conferir o filme do catarinense David Shurmann, indicado para representar o Brasil na disputa do Oscar. O filme ainda nem chegou aos cinemas. A première foi uma gentileza da assessoria da produtora que convidou alguns jornalistas para conhecer a obra antecipadamente. Fui com a Domenique, esposa, amiga e companheira.

No jargão da profissão, esses presentes para jornalistas se chamava “toquinho”, como aprendi lá nos anos 90. Mas não percebi depois essa expressão como algo regular. Acho que era mesmo coisa da cabeça do Planella. (Fotojornalista Fernando Planella). Meus agradecimentos ao pessoal da PalavraCom.

Eu fiz questão de conferir de perto a polêmica que se instaurou depois que Aquarius foi preterido em favor do Pequeno Segredo. E ainda havia outras obras perfeitas numa lista de 16 filmes nacionais, sabendo que só tem uma vaga. Apenas um filme por País pode ser indicado. Nise, no Coração da Loucura, e até o filme do José Aldo - Mais Forte que o Mundo - são muito bons mesmo.

A indicação, para quem não sabe, é feita por gente do Governo Federal. Algum setor qualquer do Ministério da Cultura, ou algo do gênero, mas irrelevante. Não são técnicos no assunto, nem notáveis críticos de cinema. Prova disso foi que em 2011 o indicado foi “O Palhaço”, um filme horrível, tenebroso, de muito mau gosto. Palhaço foi quem assistiu, como eu, por exemplo.

Aquarius entrou na disputa como reverência de um dos grupos da atual polarização política nacional, uma resposta, um agradecimento pelas manifestações pró-Dilma feita por parte do elenco, direção, produtores.

Pronto. Foi o suficiente para se levar a disputa do Oscar – ou a vaga para se entrar na fila – para o campo minado da política brasileira. Conseguir a indicação de Aquarius seria uma vitória política da tal esquerda nacional. Tão bobagem que soa como comédia, piada sem graça.

Qualquer avaliação técnica reconheceria a gritante diferença entre as duas obras. E a pertinência de se colocar Pequeno Segredo como representante da vontade nacional nesse momento. Aquarius se refere a algo irrelevante, a tal especulação imobiliária. Tão desinteressante quanto quase impronunciável, termo específico demais para se popularizar num rompante. Para quem desejar levar essa discussão à tona numa instância mais adequada, que se refira à categoria “Melhor Documentário”, fique à vontade, leitor.

Pequeno Segredo tem o DNA catarinense, não só pelo trabalho do garoto Shurmann, que cortou da própria carne para nos oferecer uma obra de arte. As cenas gravadas em Floripa, as crianças que estudam no Colégio Catarinense, a personagem que vai à Nova Zelândia e se apresenta: “de que tribo no Brasil você é? Somos da tribo de Florianópolis”.

Americanos adoram filmes extraídos de histórias verdadeiras. Quem acompanha Oscar de perto pode confirmar. Só nas últimas edições foram vários verídicos, informação que se embrenha no subconsciente do espectador, um algo a mais na interpretação da película, afinal a arte imita a vida, e a vida, imita a arte.

Por fim, Pequeno Segredo fez a Domenique chorar. Fui com a esposa assistir numa sessão às 10h, e nos valeu o dia. Depois do filme, ainda rolou uma conversa com o pessoal da Ocean, uma das produtoras que assinam o longa.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Observatório

CINEMA NA FAIXA - Pessoal da Palavra.com nos convida para uma van première do filme Pequeno Segredo, que ainda não chegou aos cinemas. Será uma sessão inaugural, especial para jornalistas, na terça (8), às 10h. Rodado em Floripa, o longa vai representar o Brasil no Oscar. Na peneira, superou outros 15 adversários nacionais, já que apenas um por País pode seguir na disputa. Entre eles, o “Nize, o Coração da Loucura”, “Chatô – O Rei do Brasil” e “José Aldo, mais Forte que o Mundo”.

PRESSÁGIO - Em 2011, fiz uma reportagem em série para o Jornal da Amazônia, de Porto Velho, sobre a reforma Psiquiátrica. Descobri uma obscura personagem real brasileira, a médica Nize da Silveira. De tão impressionado com sua trajetória, lembro que pensei: Como o cinema ou a TV não descobriram ainda essa história?  Pois descobriram, enfim. O filme é ótimo, mas mostra apenas um trecho específico da vida dessa brasileira. O que o filme não conta, mas devia, é que Nize, quando ficou presa nos anos 40, por motivos políticos, conheceu Graciliano ramos na cadeia, e virou personagem de "Memórias do Cárcere". 

DA JANELA – Da janela de casa, um apartamento no centro de Floripa, pessoal do IFSC jogando bola. Eu aqui, no home office, com mais de 60 textos pra corrigir.

ROBERTO BRAUNER – Outro dia soube da morte do radialista Roberto Brauner, com quem trabalhei num único dia, de muito aprendizado, no início dos anos 90. Brauner antou aqui por SC, ficou alguns anos em Criciúma, depois voltou ao RS. Cobriu várias Copas do Mundo como narrador.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Era meu nome na Folha de São Paulo?


Em 2013 ganhei meu terceiro prêmio do Instituto Guga Kuerten numa reportagem sobre um homem que nasceu cego, e então com 64 anos, que já tinha lido mais de 2 mil livros. Ivo de Jesus, era seu nome.

Abandonado pela mãe quando tinha 3 anos, cresceu num orfanato de freiras. Anos depois, o local se transformou numa casa para idosos, e Ivo seguiu como morador mais antigo. Ali ficou simplesmente lendo em braile a vida inteira. Nunca se casou, nunca trabalhou fora.

Ia sozinho até a biblioteca pública, mas logo leu todo o acervo em braile. Foi preciso se buscar novas obras em São Paulo. Eu ganhei o prêmio com essa reportagem, objeto de desejo de qualquer jornalista. Mas nos todos perdemos o Ivo de Jesus, que morreu, diabético, dois meses depois.


 A história chegou na Folha de São Paulo, que reconheceu meu trabalho citando gentilmente meu nome nas páginas daquele que já foi o maior e melhor jornal da América Latina.

Eleição no Rio, eleição em Floripa...

 Cariocas nunca foram bons de eleição.  E olha que acompanho esses processo desde os anos 80. Porque, eleger um mau candidato é uma coisa, natural e recorrente. Mas eleger um pastor evangélico, que um dia na TV chutou e quebrou uma estátua considerada sagrada, é coisa de maluco. Cariocas sabem sambar, filosofar sobre futebol, entendem da boemia e da chamada cultura de praia, que envolve surfe, pesca, meio ambiente. Por que, então, são tão ruins de voto?

Hoje li por aí que uma pesquisadora qualquer divulgou que é uma estratégia dos evangélicos ocupar o Executivo para chegar ao Judiciário. E qual seria o prejuízo disso para o estado de Direito? Seja qual for, será estarrecedor.


Em Florianópolis, me dei por conta que a disputa polarizada do segundo turno ficou entre a Arena e o PMDB, num cenário nostálgico que nos remete aos anos 80, o bipartidarismo, os únicos dois grupos que o Governo Militar permitia existir. A Arena trocou de nome várias vezes, se travestiu de PDS, PPR, outros tantos codinomes, até chegar mais madura sob a pele do PP. O PMDB sobreviveu a quatro décadas daquele jeito que todo mundo sabe, fazendo parte, mesmo estando à parte. “Se hai gobierno, soy a favor!”, é o que dizem.

E assim Florianópolis levou para o segundo turno exatamente eles, Arena e PMDB, num retrocesso sem tamanho, um deja vú desagradável. Travestidos, conseguiram votos fazendo promessas. Exatamente como nos anos 70, 80, 90...


domingo, 30 de outubro de 2016



Memória.

Em 2009, uma reportagem sobre acessibilidade rendeu meu primeiro prêmio de jornalismo.
À esquerda, a íntegra do material premiado, publicado no Notícias do Dia, em Florianópolis. À direita, a repercussão que a premiação teve na mídia da própria empresa.  Foi o primeiro prêmio desse jornal, que hoje já coleciona diversos troféus.


Para não esquecer Olívio Lamas


Passou quase despercebida pela imprensa em 2007 a morte do jornalista gaúcho Olívio Lamas, que morreu de câncer aos 58 anos, em sua casa, em Garopaba. Para quem não lembra, Lamas fez a primeira foto de um paciente de aids em estado terminal, ainda nos anos 80, quando os desdobramentos da doença ainda eram desconhecidos. Lamas também fez a histórica foto do atacante do Grêmio André Catimba, após o gol do título do Gauchão de 77. André tentava dar um salto mortal no ar, mas errou e caiu de peito, machucando-se.

O Prêmio Esso já era a principal distinção dada a um jornalista no Brasil, o mesmo vencido pelo nosso Herculano em Gravataí, quando Lamas foi contemplado com o primeiro lugar na categoria foto urbana, em 88. A partir daí, Lamas decidiu se tornar um exilado urbano. Construiu uma moradia rústica na beira da lagoa de Ibiraquera, em Garopaba, onde viveu com mulher e os filhos nos últimos 20 anos. Em 94, conversei com Lamas, publicando duas páginas inteiras com suas histórias no Jornal diário A Notícia, de Joinville.
A foto “o retrato da Aids” causou polêmica na redação e entre leitores nos anos 80 por revelar a face de um homem em estado terminal em decorrência da Aids. A foto valeu o prêmio Esso, entre outros, e foi publicada na revista Imprensa, no dia 11 de março de 88. Mas o próprio jornal em que o fotógrafo trabalhava reusou-se a publicá-la, por considerar muito chocante. À Revista Imprensa, Lamas perguntou: “mas o que é mais chocante, a foto ou a Aids?”.

Lamas era um dos últimos remanescentes do jornalismo romântico, repórter fotográfico de olhar sensível e atento às oportunidades para registrar os dramas humanos, as injustiças, os ângulos inusitados dos fatos relevantes e cotidianos. Não por acaso juntou um monte de prêmios na trajetória profissional. Gaúcho de Rio Grande, Lamas começou como boy na redação de Zero Hora, no final da década de 1960. Depois trabalhou na Folha da Manhã, Coojornal e Placar. Foi editor de fotografia na sucursal carioca de O Globo por 14 anos. Também realizou diversas exposições fotográficas, inclusive na Assembléia Legislativa de Santa Catarina.



Em 94, me contou: “sempre vivi nos bares. Conheço os principais bares das maiores cidades do Brasil. Foi nesses ambientes que cavei a maior parte das pautas que levava para as redações em que trabalhei".  Em Garopaba, montou seu próprio bar, que também sediava exposições de arte e de fotografias, suas e dos colegas.

Em 88, a Aids era um mito desconhecido. O primeiro paciente terminal brasileiro vinha sendo vigiado a sete chaves, num andar inteiro interditado no hospital Emílio Ribas, em São Paulo. O acesso à imprensa era proibido. Acompanhado de um repórter que faria o texto, Lamas passou uma semana visitando a unidade para uma reportagem sobre o setor hospitalar. Enquanto percorria as áreas liberadas, observava a movimentação durante as trocas de turnos do pessoal médico. Assim, localizou no horário do almoço o momento propício para dar o bote. Ou seja, passar furtivamente pelos corredores, "na ponta dos pés", iludindo a vigilância preocupada, para ganhar o piso proibido. Lamas abriu a porta e entrou. Estava feita a foto que lhe daria os prêmios Esso, Fenaj, Kodak e Herzog de Direitos Humanos. No quinto ou sexto disparo, surgiu uma enfermeira apavorada, se descabelando e gritando que ele não podia fazer aquilo.

De tão chocante a foto, ninguém queria publicar. Até que a revista Imprensa, então do jornalista Paulo Markum, publicou a foto em página inteira, abrindo o caminho para a conquista dos quatro prêmios e a consagração de uma carreira profissional.

Lamas deixou um acervo com registros de seus 37 anos de profissão, alguns dos principais momentos da História recente do Brasil, imagens que vão do chocante ao bucólico, passando por momentos como o da primeira campanha vitoriosa do presidente Luis Inácio Lula da Silva, em 2002, em que Lamas foi o fotógrafo oficial. Entre as chocantes, e que pavimentaram sua transferência da capital gaúcha para São Paulo, estão as fotos da Égua 33 que saiu de um rodeio em Vacaria-RS com fratura exposta numa das patas, e a de um cão bebendo o sangue de seu dono que acabara de ser apunhalado. As fotos mostrando a matança de animais silvestres na região do Taim, no Leste do Rio Grande do Sul, levaram à criação de uma importante unidade de conservação federal na região. Em Garopaba, dedicou-se ainda mais às causas ambientais, fotografando o litoral e suas águas, florestas e edificações.

Lamas foi um predestinado na profissão, já que contou com a sorte logo no início da carreira, na Folha da Manhã, em Porto Alegre. Numa madrugada em que saía do Palácio da Polícia, onde foi averiguar as ocorrências, Lamas já estava na calçada de volta à redação quando sentiu uma bolinha de papel lhe tocar os ombros. Havia sido jogada de uma janelinha das celas do antigo Dops, que funcionava naquele prédio. Desamassou a bolinha e leu o recado desesperado: "Sou frei Beto e estou no DOPS". A reportagem acabou salvando a vida do escritor e religioso.

Por mais meticuloso que fosse tecnicamente na busca da melhor imagem, Lamas foi sobretudo um repórter, e a informação seu verdadeiro foto. Crítico, bem-humorado e mordaz. Lamas morreu de câncer no intestino. Estava debilitado havia muitos meses. O corpo foi velado em sua casa, na lagoa de Ibiraquera, e sepultado em Imbituba.

Sua última grande matéria, em parceria com um repórter do Diário Catarinense, nunca foi publicada. Recusada pela IstoÉ, Veja e jornais do Centro do País e de Santa Catarina, o texto e as imagens mostravam um jovem lavador de carros de um tribunal que buscava o reconhecimento de paternidade. O suposto pai é um juiz da alta corte. Mas a iniciativa rendeu um acordo entre as partes.

Lamas, antes de enfurecer-se com o desfecho, revelou o que é sentimento de uma categoria: pelo menos a história fez alcançar o reconhecimento de que a verdade, mesmo não sendo amplificada pelos meios de comunicação, foi aplicada.

Lamas não era de se submeter aos ditames das convenções, avesso ao expediente de um jornal e também às regras limitadoras da criatividade, das edições e chefias subservientes. Possuía o seu próprio código, era muito bom no que fazia, tinha consciência disso; caráter, determinação e um “faro” para o “furo”, intuía o que podia ser notícia. Deixou um rastro das idéias pelas quais lutou, e que comprovam a necessidade sempre urgente de os jornalistas observarem o mundo antes de revelá-lo, de lutar por causas justas, de não temer os desafios, mesmo quando a pauta vai além das coisas ordinárias.