segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Antiga Colônia Santana, hoje Instituto de Psiquiatria de São José, esconde segredos por trás dos seus muros brancos



Neste fim de semana, estive no atual IPQ – Instituto de Psiquiatria de São José, a 25 quilômetros de Florianópolis. Fiquei surpreso ao descobrir que o local, uma ampla estrutura, um complexo de prédios em meio a uma região de mata, foi construído no auge da Segunda Guerra, ainda em 1941, pelo então governador Nereu Ramos, quando ganhou o nome de Colônia Santana. Um investimento daquele tamanho, em meio a uma época de recessão que as guerras sempre deixam à sua volta.

Desde sua inauguração até 1996, o IPQ seguiu um modelo instituído pelo psiquiatra Philippe Pinel, na França, de onde surgiu a expressão “pinel”, tão comum nos anos 70 e 80, e que virou um jargão ou gíria para distinguir os loucos.

Em 1996, a Colônia Santana chegou ao fim, surgindo em seu lugar o Instituto de Psiquiatria do Estado de Santa Catarina (IPQ). Ao longo destas sete décadas, o hospital construiu uma historia que acompanhou o desenvolvimento político assistencial em saúde mental, passando de uma trajetória de segregação e superlotação. Hoje, os releases garantem que se trata de uma instituição moderna.


Na internet, como em todos os releases que os governos adoram enviar para a imprensa, o IPQ aparece sendo chamado de “referência em assistência psiquiátrica”, expressão que remete à imaginação de que em diversos estados do Brasil, e por que não em vários países do mundo, a instituição erguida por Nereu Ramos faz escola no planeta, e serve de modelo para todos!.

Mas não foi exatamente essa a impressão que tive do local.

Os pacientes são separados por sexo, e também por gravidade do quadro diagnosticado. Mulheres e homens não convivem no mesmo ambiente, e são sempre atendidos por enfermeiros ou enfermeiras do seu mesmo sexo. Isso já evitaria uma calamidade que seria meio óbvia, se não fosse trágica, a de que os funcionários abusassem das pacientes, como no filme Kill Bill, onde a personagem de Uma Thurman sofre abusos durante os anos em que ficou em coma.

A vida imita a arte, ou a arte imita a vida. Em Porto Velho, Rondônia, uma mulher chamada Elaine Cristina Libório, contou que foi estuprada diversas vezes por enfermeiros, enquanto estava grogue dos medicamentos.

Mas no Instituto de Psiquiatria de São José os abusos são evitados com essa providência de separação por sexo. Os relatos da precariedade e tratamento dizem respeito a outras atrocidades. Uma delas, por exemplo, é a proibição de que pacientes namorem, ou se apaixonem, ou tenham relações. Na ala feminina, pelo que apurei, existem os romances escondidos e proibidos entre as pacientes.

Todos os pecientes são proibidos de usarem suas próprias roupas. Eles recebem roupas que vieram de doações, ou procedência desconhecida, como sempre ocorre com roupas doadas. Quando as roupas seguem para a lavanderia, todas juntas e sem separação, são devolvidas aleatoriamente.

- Hoje eu estou com esse casaco, essa calça. Amanhã vejo a mesma roupa noutra paciente, depois de amanhã em outra. Um dia ela volta para que eu tenha que vestir -, explicou uma paciente.

Não há preocupação se as pessoas têm doenças de pele, alergias, ou mesmo aquele senso de higiene que aprendemos com os avós. Se você for louco, e for usar o SUS, precisa abandonar seus conceitos sobre higiene e esquecer o asco.

Os cigarros também são compartilhados, e da forma mais aleatória e despreocupada possível. Os familiares trazem cigarros para os pacientes, mas estes são distribuídos pelos enfermeiros com controle simétrico. E mesmo os pacientes que não receberam cigarros, são contemplados com seus exemplares, chamados de “doações” pelos pacientes.

O nível de conhecimento e preparação das enfermeiras pode ser medido por um caso ocorrido há poucos dias. Uma das pacientes conseguiu entrar escondido após uma visita com um cigarro Gudang. A enfermeira que percebeu e confiscou o material, ainda relatou na ata do dia, oficializando o motivo da apreensão: DROGA. Paciente foi flagrada com droga dentro da instituição.

A Gudang é a maior fabricante de cigarros da Indonésia. No começo do século XIX, um antigo cigarro chamado Kretek deu origem ao Gudang Garam, composto de Tabaco e Cravo, o que antigamente foi considerado medicinal. Estudos comprovaram que o Gudang não possui nenhuma porcentagem de maconha, como se chegou a cogitar. O que causa a "tontura" é o nível de nicotina, alcatrão e monóxido de carbono que é três vezes maior que um cigarro normal além da existência do Eugenol, um anestésico que produz as tonturas e em casos pode dar paralisia respiratória.

Há também o caso de uma paciente chamada Natália. Gaúcha de Gravataí, ela teve um filho com um rapaz catarinense de Braço do Norte, para onde foi morar com o marido e a sogra. No entanto,  Natália acabou sendo internada no IPQ pela sogra, que assim conseguiu ficar com o neto longe da nora.

Natália garante que não tem nenhum problema psiquiátrico, mas vive sob efeitos de medicamentos fortes e não consegue reagir. Entre os pacientes, também não é permitido uso de caneta. Mesmo assim, num ato de coragem, Natália conseguiu anotar um telefone num pedaço de papel e pedir socorro ao repórter.

- Liguem para minha mãe no Rio Grande do Sul e peça para ela vir me socorrer -, contou, desesperada.

O IPQ de São José funciona sob administração da Secretaria de Estado da Saúde (SES). Possui 160 leitos para internação de pacientes em emergência psiquiátrica, além do Centro de Convivência Santana (CCS) que abriga pacientes remanescentes do antigo Hospital Colônia Sant’Ana. Atualmente são atendidos 463 pacientes, entre crônicos e agudos, dos quais cerca de 40% moram na local.


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