segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Era meu nome na Folha de São Paulo?


Em 2013 ganhei meu terceiro prêmio do Instituto Guga Kuerten numa reportagem sobre um homem que nasceu cego, e então com 64 anos, que já tinha lido mais de 2 mil livros. Ivo de Jesus, era seu nome.

Abandonado pela mãe quando tinha 3 anos, cresceu num orfanato de freiras. Anos depois, o local se transformou numa casa para idosos, e Ivo seguiu como morador mais antigo. Ali ficou simplesmente lendo em braile a vida inteira. Nunca se casou, nunca trabalhou fora.

Ia sozinho até a biblioteca pública, mas logo leu todo o acervo em braile. Foi preciso se buscar novas obras em São Paulo. Eu ganhei o prêmio com essa reportagem, objeto de desejo de qualquer jornalista. Mas nos todos perdemos o Ivo de Jesus, que morreu, diabético, dois meses depois.


 A história chegou na Folha de São Paulo, que reconheceu meu trabalho citando gentilmente meu nome nas páginas daquele que já foi o maior e melhor jornal da América Latina.

Eleição no Rio, eleição em Floripa...

 Cariocas nunca foram bons de eleição.  E olha que acompanho esses processo desde os anos 80. Porque, eleger um mau candidato é uma coisa, natural e recorrente. Mas eleger um pastor evangélico, que um dia na TV chutou e quebrou uma estátua considerada sagrada, é coisa de maluco. Cariocas sabem sambar, filosofar sobre futebol, entendem da boemia e da chamada cultura de praia, que envolve surfe, pesca, meio ambiente. Por que, então, são tão ruins de voto?

Hoje li por aí que uma pesquisadora qualquer divulgou que é uma estratégia dos evangélicos ocupar o Executivo para chegar ao Judiciário. E qual seria o prejuízo disso para o estado de Direito? Seja qual for, será estarrecedor.


Em Florianópolis, me dei por conta que a disputa polarizada do segundo turno ficou entre a Arena e o PMDB, num cenário nostálgico que nos remete aos anos 80, o bipartidarismo, os únicos dois grupos que o Governo Militar permitia existir. A Arena trocou de nome várias vezes, se travestiu de PDS, PPR, outros tantos codinomes, até chegar mais madura sob a pele do PP. O PMDB sobreviveu a quatro décadas daquele jeito que todo mundo sabe, fazendo parte, mesmo estando à parte. “Se hai gobierno, soy a favor!”, é o que dizem.

E assim Florianópolis levou para o segundo turno exatamente eles, Arena e PMDB, num retrocesso sem tamanho, um deja vú desagradável. Travestidos, conseguiram votos fazendo promessas. Exatamente como nos anos 70, 80, 90...


domingo, 30 de outubro de 2016



Memória.

Em 2009, uma reportagem sobre acessibilidade rendeu meu primeiro prêmio de jornalismo.
À esquerda, a íntegra do material premiado, publicado no Notícias do Dia, em Florianópolis. À direita, a repercussão que a premiação teve na mídia da própria empresa.  Foi o primeiro prêmio desse jornal, que hoje já coleciona diversos troféus.


Para não esquecer Olívio Lamas


Passou quase despercebida pela imprensa em 2007 a morte do jornalista gaúcho Olívio Lamas, que morreu de câncer aos 58 anos, em sua casa, em Garopaba. Para quem não lembra, Lamas fez a primeira foto de um paciente de aids em estado terminal, ainda nos anos 80, quando os desdobramentos da doença ainda eram desconhecidos. Lamas também fez a histórica foto do atacante do Grêmio André Catimba, após o gol do título do Gauchão de 77. André tentava dar um salto mortal no ar, mas errou e caiu de peito, machucando-se.

O Prêmio Esso já era a principal distinção dada a um jornalista no Brasil, o mesmo vencido pelo nosso Herculano em Gravataí, quando Lamas foi contemplado com o primeiro lugar na categoria foto urbana, em 88. A partir daí, Lamas decidiu se tornar um exilado urbano. Construiu uma moradia rústica na beira da lagoa de Ibiraquera, em Garopaba, onde viveu com mulher e os filhos nos últimos 20 anos. Em 94, conversei com Lamas, publicando duas páginas inteiras com suas histórias no Jornal diário A Notícia, de Joinville.
A foto “o retrato da Aids” causou polêmica na redação e entre leitores nos anos 80 por revelar a face de um homem em estado terminal em decorrência da Aids. A foto valeu o prêmio Esso, entre outros, e foi publicada na revista Imprensa, no dia 11 de março de 88. Mas o próprio jornal em que o fotógrafo trabalhava reusou-se a publicá-la, por considerar muito chocante. À Revista Imprensa, Lamas perguntou: “mas o que é mais chocante, a foto ou a Aids?”.

Lamas era um dos últimos remanescentes do jornalismo romântico, repórter fotográfico de olhar sensível e atento às oportunidades para registrar os dramas humanos, as injustiças, os ângulos inusitados dos fatos relevantes e cotidianos. Não por acaso juntou um monte de prêmios na trajetória profissional. Gaúcho de Rio Grande, Lamas começou como boy na redação de Zero Hora, no final da década de 1960. Depois trabalhou na Folha da Manhã, Coojornal e Placar. Foi editor de fotografia na sucursal carioca de O Globo por 14 anos. Também realizou diversas exposições fotográficas, inclusive na Assembléia Legislativa de Santa Catarina.



Em 94, me contou: “sempre vivi nos bares. Conheço os principais bares das maiores cidades do Brasil. Foi nesses ambientes que cavei a maior parte das pautas que levava para as redações em que trabalhei".  Em Garopaba, montou seu próprio bar, que também sediava exposições de arte e de fotografias, suas e dos colegas.

Em 88, a Aids era um mito desconhecido. O primeiro paciente terminal brasileiro vinha sendo vigiado a sete chaves, num andar inteiro interditado no hospital Emílio Ribas, em São Paulo. O acesso à imprensa era proibido. Acompanhado de um repórter que faria o texto, Lamas passou uma semana visitando a unidade para uma reportagem sobre o setor hospitalar. Enquanto percorria as áreas liberadas, observava a movimentação durante as trocas de turnos do pessoal médico. Assim, localizou no horário do almoço o momento propício para dar o bote. Ou seja, passar furtivamente pelos corredores, "na ponta dos pés", iludindo a vigilância preocupada, para ganhar o piso proibido. Lamas abriu a porta e entrou. Estava feita a foto que lhe daria os prêmios Esso, Fenaj, Kodak e Herzog de Direitos Humanos. No quinto ou sexto disparo, surgiu uma enfermeira apavorada, se descabelando e gritando que ele não podia fazer aquilo.

De tão chocante a foto, ninguém queria publicar. Até que a revista Imprensa, então do jornalista Paulo Markum, publicou a foto em página inteira, abrindo o caminho para a conquista dos quatro prêmios e a consagração de uma carreira profissional.

Lamas deixou um acervo com registros de seus 37 anos de profissão, alguns dos principais momentos da História recente do Brasil, imagens que vão do chocante ao bucólico, passando por momentos como o da primeira campanha vitoriosa do presidente Luis Inácio Lula da Silva, em 2002, em que Lamas foi o fotógrafo oficial. Entre as chocantes, e que pavimentaram sua transferência da capital gaúcha para São Paulo, estão as fotos da Égua 33 que saiu de um rodeio em Vacaria-RS com fratura exposta numa das patas, e a de um cão bebendo o sangue de seu dono que acabara de ser apunhalado. As fotos mostrando a matança de animais silvestres na região do Taim, no Leste do Rio Grande do Sul, levaram à criação de uma importante unidade de conservação federal na região. Em Garopaba, dedicou-se ainda mais às causas ambientais, fotografando o litoral e suas águas, florestas e edificações.

Lamas foi um predestinado na profissão, já que contou com a sorte logo no início da carreira, na Folha da Manhã, em Porto Alegre. Numa madrugada em que saía do Palácio da Polícia, onde foi averiguar as ocorrências, Lamas já estava na calçada de volta à redação quando sentiu uma bolinha de papel lhe tocar os ombros. Havia sido jogada de uma janelinha das celas do antigo Dops, que funcionava naquele prédio. Desamassou a bolinha e leu o recado desesperado: "Sou frei Beto e estou no DOPS". A reportagem acabou salvando a vida do escritor e religioso.

Por mais meticuloso que fosse tecnicamente na busca da melhor imagem, Lamas foi sobretudo um repórter, e a informação seu verdadeiro foto. Crítico, bem-humorado e mordaz. Lamas morreu de câncer no intestino. Estava debilitado havia muitos meses. O corpo foi velado em sua casa, na lagoa de Ibiraquera, e sepultado em Imbituba.

Sua última grande matéria, em parceria com um repórter do Diário Catarinense, nunca foi publicada. Recusada pela IstoÉ, Veja e jornais do Centro do País e de Santa Catarina, o texto e as imagens mostravam um jovem lavador de carros de um tribunal que buscava o reconhecimento de paternidade. O suposto pai é um juiz da alta corte. Mas a iniciativa rendeu um acordo entre as partes.

Lamas, antes de enfurecer-se com o desfecho, revelou o que é sentimento de uma categoria: pelo menos a história fez alcançar o reconhecimento de que a verdade, mesmo não sendo amplificada pelos meios de comunicação, foi aplicada.

Lamas não era de se submeter aos ditames das convenções, avesso ao expediente de um jornal e também às regras limitadoras da criatividade, das edições e chefias subservientes. Possuía o seu próprio código, era muito bom no que fazia, tinha consciência disso; caráter, determinação e um “faro” para o “furo”, intuía o que podia ser notícia. Deixou um rastro das idéias pelas quais lutou, e que comprovam a necessidade sempre urgente de os jornalistas observarem o mundo antes de revelá-lo, de lutar por causas justas, de não temer os desafios, mesmo quando a pauta vai além das coisas ordinárias.