Antiga
Colônia Santana, hoje Instituto de Psiquiatria de São José, esconde segredos
por trás dos seus muros brancos
Neste
fim de semana, estive no atual IPQ – Instituto de Psiquiatria de São José, a 25
quilômetros de Florianópolis. Fiquei surpreso ao descobrir que o local, uma
ampla estrutura, um complexo de prédios em meio a uma região de mata, foi
construído no auge da Segunda Guerra, ainda em 1941, pelo então governador
Nereu Ramos, quando ganhou o nome de Colônia Santana. Um investimento daquele
tamanho, em meio a uma época de recessão que as guerras sempre deixam à sua
volta.
Desde
sua inauguração até 1996, o IPQ seguiu um modelo instituído pelo psiquiatra
Philippe Pinel, na França, de onde surgiu a expressão “pinel”, tão comum nos
anos 70 e 80, e que virou um jargão ou gíria para distinguir os loucos.
Em
1996, a Colônia Santana chegou ao fim, surgindo em seu lugar o Instituto de
Psiquiatria do Estado de Santa Catarina (IPQ). Ao longo destas sete décadas, o
hospital construiu uma historia que acompanhou o desenvolvimento político
assistencial em saúde mental, passando de uma trajetória de segregação e
superlotação. Hoje, os releases garantem que se trata de uma instituição
moderna.
Na
internet, como em todos os releases que os governos adoram enviar para a
imprensa, o IPQ aparece sendo chamado de “referência em assistência
psiquiátrica”, expressão que remete à imaginação de que em diversos estados do
Brasil, e por que não em vários países do mundo, a instituição erguida por
Nereu Ramos faz escola no planeta, e serve de modelo para todos!.
Mas
não foi exatamente essa a impressão que tive do local.
Os
pacientes são separados por sexo, e também por gravidade do quadro
diagnosticado. Mulheres e homens não convivem no mesmo ambiente, e são sempre
atendidos por enfermeiros ou enfermeiras do seu mesmo sexo. Isso já evitaria
uma calamidade que seria meio óbvia, se não fosse trágica, a de que os
funcionários abusassem das pacientes, como no filme Kill Bill, onde a personagem
de Uma Thurman sofre abusos durante os anos em que ficou em coma.
A
vida imita a arte, ou a arte imita a vida. Em Porto Velho, Rondônia, uma mulher
chamada Elaine Cristina Libório, contou que foi estuprada diversas vezes por
enfermeiros, enquanto estava grogue dos medicamentos.
Mas
no Instituto de Psiquiatria de São José os abusos são evitados com essa providência
de separação por sexo. Os relatos da precariedade e tratamento dizem respeito a
outras atrocidades. Uma delas, por exemplo, é a proibição de que pacientes
namorem, ou se apaixonem, ou tenham relações. Na ala feminina, pelo que apurei,
existem os romances escondidos e proibidos entre as pacientes.
Todos
os pecientes são proibidos de usarem suas próprias roupas. Eles recebem roupas
que vieram de doações, ou procedência desconhecida, como sempre ocorre com
roupas doadas. Quando as roupas seguem para a lavanderia, todas juntas e sem
separação, são devolvidas aleatoriamente.
-
Hoje eu estou com esse casaco, essa calça. Amanhã vejo a mesma roupa noutra
paciente, depois de amanhã em outra. Um dia ela volta para que eu tenha que
vestir -, explicou uma paciente.
Não
há preocupação se as pessoas têm doenças de pele, alergias, ou mesmo aquele
senso de higiene que aprendemos com os avós. Se você for louco, e for usar o
SUS, precisa abandonar seus conceitos sobre higiene e esquecer o asco.
Os
cigarros também são compartilhados, e da forma mais aleatória e despreocupada
possível. Os familiares trazem cigarros para os pacientes, mas estes são distribuídos
pelos enfermeiros com controle simétrico. E mesmo os pacientes que não
receberam cigarros, são contemplados com seus exemplares, chamados de “doações”
pelos pacientes.
O
nível de conhecimento e preparação das enfermeiras pode ser medido por um caso ocorrido
há poucos dias. Uma das pacientes conseguiu entrar escondido após uma visita
com um cigarro Gudang. A enfermeira que percebeu e confiscou o material, ainda
relatou na ata do dia, oficializando o motivo da apreensão: DROGA. Paciente foi
flagrada com droga dentro da instituição.
A
Gudang é a maior fabricante de cigarros da Indonésia. No começo do século XIX, um
antigo cigarro chamado Kretek deu origem ao Gudang Garam, composto de Tabaco e
Cravo, o que antigamente foi considerado medicinal. Estudos comprovaram que o Gudang
não possui nenhuma porcentagem de maconha, como se chegou a cogitar. O que
causa a "tontura" é o nível de nicotina, alcatrão e monóxido de
carbono que é três vezes maior que um cigarro normal além da existência do
Eugenol, um anestésico que produz as tonturas e em casos pode dar paralisia
respiratória.
Há
também o caso de uma paciente chamada Natália. Gaúcha de Gravataí, ela teve um
filho com um rapaz catarinense de Braço do Norte, para onde foi morar com o
marido e a sogra. No entanto, Natália
acabou sendo internada no IPQ pela sogra, que assim conseguiu ficar com o neto
longe da nora.
Natália
garante que não tem nenhum problema psiquiátrico, mas vive sob efeitos de
medicamentos fortes e não consegue reagir. Entre os pacientes, também não é
permitido uso de caneta. Mesmo assim, num ato de coragem, Natália conseguiu
anotar um telefone num pedaço de papel e pedir socorro ao repórter.
-
Liguem para minha mãe no Rio Grande do Sul e peça para ela vir me socorrer -,
contou, desesperada.
O
IPQ de São José funciona sob administração da Secretaria de Estado da Saúde
(SES). Possui 160 leitos para internação de pacientes em emergência
psiquiátrica, além do Centro de Convivência Santana (CCS) que abriga pacientes
remanescentes do antigo Hospital Colônia Sant’Ana. Atualmente são atendidos 463
pacientes, entre crônicos e agudos, dos quais cerca de 40% moram na local.